sábado, 18 de julho de 2009

Capô e a Geração Youtube

O post anterior, "Não peçam de graça...", gerou um interessante debate nas listas de internet das quais participo. O assunto se desdobrou e estávamos a discutir o financiamento do cinema pelas dicotomias comercial versus arte e público versus privado. De repente, o aluno, digo, ex-aluno já formado de uma faculdade de cinema afirma perguntando: "O governo deve incentivar filmes que rendam bilheteria (e que de alguma forma contribuem para algum fluxo de produção) e que são criticados pelos pseudos-intelectuais que odeiam filmes comerciais, ou apenas dar dinheiro (1 milhão!!! 1 milhão!!!) pro Maurice Capovila jogar fora em seu filme que não deve ter tido nem 50 mil espectadores com a prerrogativa de ser um filme de arte?"

"Opa!", exclamei, "o que você sabe sobre Maurice Capovilla?". Um outro rapaz correu ao Google, encontrou o Filme B, copiou a biografia editada do Capô e colou numa mensagem de resposta. Pronto, agora todo mundo sabe quem é Maurice Capovilla. Ver seus filmes, pra quê? Ler seus escritos não carece. Tomar uma cachacinha com ele? Nem pensar.

O primeiro rapaz retornou: "O que eu sei de Maurice Capovila?! Que ele fez o filme 'Harmadda' com 1 milhão de reais, dado fornecido por ele mesmo em um debate com estudantes da Estácio. Filme este sem preocupação comercial nenhuma, e que se acharmos os dados de sua exibição (se é que o produto chegou a ser exibido), verá que a sua falta de interesse comercial do diretor torna o produto uma aberração em números incentivados e retornados."

Bem, pelo menos esse rapaz tem opinião e isso eu respeito. Mas não consigo entender como, guardadas as exceções, uma geração inteira terá sua formação crítica tanto de cinema quanto de vida por intermédio de myspaces e youtubes!? Principalmente porque sabemos que qualquer um poderá entrar nas wikipédias do cyber-universo e escrever um parágrafo como esse no verbete Maurice Capovilla.

4 comentários:

SB disse...

Marcelo, sabemos do golpe que tem nisto não mesmo, a ponto do Youtube nos tirar o sarro via Minc. E esta regência é de uma sociedade fascista. Quando nós cineastas discutimos democracia, por exemplo, na maioria das vezes não temos esta clareza. Esta indústria que liga seus microfoninhos e orelhas em anônimos para sugerir o que eles desejam, quer construir estrelas e vender cervejas - o modelinho esta composto, ele é estrangeiro e mesmo quando mais escurinho é branco. Este modelo quer o ídolo e seus idólatras. É isto, assim dissimulam seus verdadeiros interesses escravagistas.
Ontem, eu fui num barzinho ouvir música. E além da caixa de som Marshall, as músicas de Gil (a Bahia já me deu régua e compasso) e Chico de Holanda (mulher!! vai botar água no feijão, fritar lingüiça e abrir umas cervejas). Eu observei uma linda mulher que no centro do palco e de lateral e bunda para a platéia
- costume aqui da região, nunca foi vista como maestra e sim como mais uma "putinha" gostosa e poposuda - este é o negócio comercial destes caras - e se tiver bastante cocaína melhor ainda.
É só pronunciar a palavra arte que eles reagem no comercial. Democracia para estes caras é fascismo.
Este papo deve ir para um museu de antiguidades.

SB

Pablo disse...

Marcelo, informo que já sou formado em cinema. E mantenho meu posicionamento sobre o Capovilla, ok? Ele poderia ser Glauber Rocha ou qualquer outro endeusado do cinema brasileiro que eu ainda serei contra pegar verba e investir em um produto que não contribua que o fluxo audiovisual continue.

Abraços,

Pablo.

Marcelo Laffitte disse...

Certo, Pablo.
Sua qualificação foi corrigida.

Carlos Alberto Mattos disse...

Eu escrevi um livro sobre o Capovilla e conheço a importância de sua obra para o cinema brasileiro. Gastar um milhão para fazer um filme pessoal (goste-se ou não) é um direito que ele conquistou.